Era uma situação constrangedora. Pra os dois. Ela, o amava
desde criança. Mais de 15 anos tinham passado, ela não era exatamente o que
imaginava que seria aos 25. Continuava tímida, insegura, e o pior. Ainda
gostava dele. Foi só vê-lo com a
outra que o amor gritou “Oi, eu tô aqui!”.
Na realidade, ele também não era o homem que ela imaginava
que seria aos 30. Estava no emprego há pouco tempo, já tivera um monte de
mulheres, todas umas babacas.
Mas não sentiu amor por nenhuma delas.
Nada de mãos dadas, beijos de boa noite, livros de
presente. Eram todas frívolas, infantis. Sem profundidade.
Eu não sei, mas talvez ele soubesse que ela o amava. As
mulheres acham que escondem, mas são mais translúcidas que as aguas das
Maldivas. Ele, porém, tinha medo. Medo de desfazer-se de si. Medo de não conhecer
todas as mulheres, todas as bocas e seios.
Medo de precisar só de uma.
Medo de pertencer...
Medo de pertencer...
Medo de perdê-la. Era mesmo puro egoísmo.
Ela... era toda entrega.
Ele teria sorrido se ela não tivesse fingido tocar o
celular e saído com a desculpa de um imprevisto. Saiu envergonhada de si mesma. De tudo o que
sentia. De não ter vencido o próprio coração através dos anos. E não venceria,
sabia disso.
Súbito percebeu que o peito ardia. Não era um ataque no miocárdio. A moça que estava com ele, tinha as mãos finas, delicadas e frias. Era uma mulherzinha. “Mô, vambora. Este lugar tá uma merda”.
Ela... era toda entrega.
Súbito percebeu que o peito ardia. Não era um ataque no miocárdio. A moça que estava com ele, tinha as mãos finas, delicadas e frias. Era uma mulherzinha. “Mô, vambora. Este lugar tá uma merda”.
Tantas
bocas, tantos cheiros comuns e mãos frias, “mô” de tantos timbres diferentes. E
o seu coração já não era mais dele. Tudo o que ele procurava, era ela. Mas não
queria ser dela. Não era o compromisso, a responsabilidade por ter cativado
alguém. Nem almoçar domingo com a sogra. Nem deixar as zinhas pra trás.
Era
não pertencer mais a si mesmo. Estar vulnerável. Precisar dela. Trocar a cama
pelo sofá embalado pelos Miseráveis.
Teria
ido atrás dela, dos quinze anos amargados nele mesmo. E apagado nos lábios dela
o fel da boca das mulherzinhas que tinham passado pela sua vida... Queria ouvir o seu nome na boca dela. Não um
mô vazio sem significado.
Já
era tarde.Ela
se foi.
Ele
não sabia. Mas
já pertencia a ela...

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